Olá meu nome é Bruno Maya, sou jornalista e pesquisador de cinema. Blog com minhas críticas, comentários e ensaios sobre cinema.

segunda-feira, 18 de setembro de 2023

A representação da herança do colonialismo em Caché (2005).


Nota: 9.5/10

O personagem principal de Caché (2005) é Georges, uma figura midiática apresentador de um programa literário e que, junto com sua família, tem sua rotina abalada pela chegada de fitas que contêm, basicamente, imagens da fachada de sua casa ou de locais da infância do protagonista. Georges passa a investigar a procedência de tais correspondências, o que acaba levando-o a rever coisas da sua história, em especial sua relação com Majid, filho de ex-empregados de seus pais e de origem argelina.   

Por meio dessa história, o filme se refere ao legado do colonialismo, o que vai se revelando aos poucos na relação entre Georges e Majid – a ligação de ambos leva a história do filme a um acontecimento tabu da França: o assassinato de argelinos pela polícia francesaem 1961, numa manifestação de integrantes daFrente de Libertação Nacional – FLNreprimida pela polícia de Paris.

Na infância dos personagens, os pais de Georges demitem os de Majid, seus empregados. Acontece, então, que ambos se envolvem na referida manifestação, e são mortos pela polícia francesa. Os pais de Georges adotam Majid, presença que incomoda o então garoto francês de classe média, que presta uma queixa e induz a expulsão também do menino argelino.     

É assim que o filme nos apresenta a relação entre Georges e Majid e seu envolvimento. Ambos os personagens são símbolos e rastros da chamada guerra da Argélia (1954-1962), e mais especificamente do acontecimento referenciado no filme. O caráter metafórico da caçada ao responsável pelo envio das gravações no filme acaba por trazer o tema da memória do colonialismo, questionar a mis-en-scène e o papel da imagem como artifício de ilusão e o aspecto manipulatório do cinema. 

Essas imagens que atormentam George, por sua relação com a história da França, são breves flashes, pesadelos, devaneios; tudo se refere a algo que se encontra recalcado, escondido. Nessa construção da trama, há um jogo na forma pela qual a câmera trabalha a diegese, o que nos leva a questionar a origem e o status daquelas imagens: viriam elas da subjetividade das personagens e, nesse sentido, até que ponto é possível confiar nelas? 

Boa parte dessas sequências acontecem à revelia do personagem, ou seja, notamos que as imagens chegam por correspondência e são formas de reenquadrar a história por questionar o ponto de vista de George. Elas referem-se à história pessoal do protagonista e são emblemáticas para o espectador, pois levam a uma reflexão sobre a forma pela qual interpretamos o filme.    

Caché (2005) propõe um mistério inicial ao apresentar imagens da fachada da casa de Georges e sua família, que estão em fitas gravadas enviadas por correspondência. Os indícios sugerem que há alguém os vigiando, e o conflito do casal de classe média é centrado no misterioso fato de terem sua rotina abalada pela chegada dessas fitas. Mas em que medida essa ameaça é real ou artificial, como se constroem as diferentes perspectivas de Caché (2005) (2005)?

Nesse cenário, e pelas formas de enquadramento, Haneke faz um jogo entre o visível e o fora de campo, tudo que o espectador pode ou não ver em sequências-chave para sugerir que algo está escondido, e ganha uma simbologia não apenas para a história individual de George, mas também para a França. Os planos-fixos, os tempos mortos, os elementos incógnitos da narrativa visam colocar em numa zona de desconforto, e demonstrar que há algo errado. 

Constitui-se, assim, em Caché (2005), referências ao traumático e ao interdito da França, como uma forma de recalcado social, de elaboração incrustada nas relações sociais e territórios implicados nos personagens. É o que está escondido que acaba por trazer o reenquadramento, em sequências misteriosas que trazem à tona a história dentro da história. 

Ao mesmo tempo em que George revisita sua relação com Majid, a manifestação de 1961 permeia a realização de Caché (2005). A forma de organizar a narrativa joga com a curiosidade e o voyeurismo do espectador, que posto no lugar de detetive, tenta dar uma coerência a história tendo como central Georges, uma figura midiática apresentador de um programa literário. 

Por esse motivo, é relevante entender como o histórico dos argelinos e a “gestão dos indesejáveis” na França serve como chave nos territórios delimitados para os personagens, as acusações e a perseguição da caçada. Georges, e sua influencia massiva, tem presença nas falas dos personagens que interagem com ele: sua figura, misteriosa e autocentrada, estabelece o dilema da trama, pois ao mesmo tempo em que aparente são revelados os acontecimentos de sua relação com Majid, não há uma evidência sobre a culpa que Georges o atribui.  

 






 



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