Olá meu nome é Bruno Maya, sou jornalista e pesquisador de cinema. Blog com minhas críticas, comentários e ensaios sobre cinema.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

 Aos Olhos de Ernesto: um olhar poético sobre a potencialidade das relações humanas. 


O bom longa de Ana Azevedo aproxima o espectador do personagem principal, Ernesto, de forma afetiva, ao representar com um tom sensível, e até cômico, as relações que o cercam.

 

 


 

Pode-se argumentar que há certa inocência em Aos Olhos de Ernesto. Entretanto não tem só algo negativo na simbolização da aposta ou crença nas relações entre os personagens do filme de Ana Luiza Azevedo. Existe sim um pacto estabelecido, mesmo que de forma silenciosa, entre Ernesto (Jorge Bolani) e os que o cercam. Forma-se, dentro daquele pequeno universo, um olhar sensível para o personagem principal e as pessoas que se engajam com ele: em suas diferenças, potencializa-se o encontro.  

Começamos acompanhando um desconforto de Ernesto com a situação de ter que vender o seu apartamento. A relação dele com aquele espaço é, aos poucos, apresentada ao espectador e até bem desenvolvida pela direção.  É nesse cenário que conhecemos a rotina de Ernesto: um idoso que mora sozinho e recebe a visita da faxineira. 

O abandono e o descaso seriam um caminho para propor o tema do desrespeito social da velhice no Brasil (como no momento em que ele vai buscar a sua aposentadoria e descobre que o valor é menor do que o esperado). No entanto, Aos Olhos de Ernesto toma outro rumo que, em si, não é demérito: ele aposta nas relações por meio de um olhar poético.

O destaque fica para as trocas entre os personagens, carregadas de poesia, de reflexão, e também humor. A comunicação de Ernesto com a personagem Bia (Gabriela Poester) dita o tom de contraste estabelecido entre ambos; o que serve, ao mesmo tempo, como encontro. As diferenças que os separam, ou seja, o vocabulário e a geração, acabam sendo um forte elemento de união e de afeto entre os dois nas suas vidas solitárias. Ernesto e Bia parecem se entender nesse caminho. 

Acrescenta-se a isso as visitas constantes do vizinho argentino (George D´Élia), outro “invasor” que costuma ler as notícias para Ernesto, já que ele tem uma cegueira crescente. Reside, então, nessas possibilidades de troca, toda a poesia do filme. 

 

Avaliação: Bom 

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