Olá meu nome é Bruno Maya, sou jornalista e pesquisador de cinema. Blog com minhas críticas, comentários e ensaios sobre cinema.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

 Três verões e o Brasil da “Lava à Jato”

Pouco inspirado e cheio de lugares-comuns, o longa de Sandra Kogut aposta no carisma de Regina Casé para conquistar o espectador.





Acompanho a filmografia de Sandra Kogut desde que conheci o bom Mutum, sua estreia em longa de ficção. Antes, a cineasta já se aventurava no documentário, ao realizar o interessante Passaporte Húngaro, que, de teor pessoal e íntimo, trata de questões como origem e pertencimento. Os filmes que se sucedem a esses dois trabalhos, entretanto, não deixam de ser decepcionantes, como é o caso do seu mais recente filme, Três Verões

Não fosse a atuação de Regina Casé, pouco ou nada restaria para Três Verões. É ela que leva praticamente toda a história e consegue protagonizar boas cenas, como a do iate, em que apresenta as mansões luxuosas aos que passeavam no local. O filme, entretanto, decide tratar sobre o óbvio: uma elite corrupta explora os empregados.

Encontra-se na trama de Três Verões a falsa ideia de inclusão que faz parte da cultura brasileira, na qual muito por uma herança escravagista misturada com uma noção errônea de democratização das raças, os empregados são "extensão" da família dos ricos (tomam conta da casa ou ajudam a criar os filhos). Em Três Verões, acompanhamos a saga de uma “empreendedora”, Madá (Regina Casé), que, mesmo com a saída dos seus patrões presos ou viajando, continua a elaborar uma forma de manter os seus negócios. 

Por isso há, no filme de Sandra Kogut, uma visão de que a corrupção toma o território das grandes mansões e o condomínio de luxo, mas pouco afeta a personagem de Regina Casé que, mesmo com seu negócio fechando, aproveita-se da antiga mansão para os mais diversos fins. Há certa exaltação do "chefe de si mesmo" e do autoempreendedorismo (termos aliás bem em voga no capitalismo atual), junto ao famoso "jeitinho" - de "criatividade" - mais ou menos com a ideia de que atravessar mazelas sociais é algo "positivo".  

Os seus patrões praticamente somem do filme: há apenas uma chamada virtual de um advogado afirmando que eles não haviam se esquecido dos seus empregados. A prisão do rico, no entanto, pode passar a impressão de uma maneira simplista de que a corrupção está realmente sendo combatida no Brasil: sabemos, no entanto, que não é bem assim. Reside nessa abordagem, então, um dos lugares-comuns do filme, do pai do personagem corrupto inconformado com o clássico: “aonde foi que eu errei?”. 

O pior é que, além disso, a história não é muito bem desenvolvida, a narrativa pouco engaja e mesmo os esforços de Regina Casé são insuficientes diante da pobreza do relato. Poderia se argumentar que o filme é "diferente", pois mostra "o outro lado", ou seja, dos empregados que são deixados pela saída dos patrões. No entanto, nem isso está bem trabalhado no filme, e não notamos direito como o fato afetou os empregados (a não ser pelo fechamento da barraca da personagem de Regina Casé), o que, no final das contas, acaba até sendo melhor para ela. 

A proposta "realista" encontra um filme perdido que pouco colabora para discussão sobre a corrupção estrutural e endêmica no Brasil. No mais, apresenta uma versão piorada da atuação de Regina Casé no bom A que horas ela volta? (Anna Muylaert), muito mais interessante para tratar sobre as relações patrão-empregado, a hipocrisia e os territórios de classe. 


Elenco de 'Três verões' — Foto: Divulgação/Vitrine Filmes




O pior do filme, no entanto, está reservado para o final. A ideia até poderia ser interessante se bem aproveitada. Regina Casé decide alugar a mansão para a realização de comerciais, e o filme decide deixar o espectador acompanhando as gravações. Em uma delas, a própria Regina Casé participa. Tudo isso, além de meio falso, torna-se extremamente chato: mesmo entendendo a intenção da cineasta, o filme acaba por se perder e apresentar, no terceiro ato, seu momento mais fraco. 

Regina Casé, mais uma vez, consegue entregar uma boa atuação, mas ainda é muito pouco para um filme que tem uma execução que deixa muito a desejar. A história, assim, poderia apresentar outros elementos e não se restringir a um show particular de Regina Casé. 

 

Avaliação - Ruim 

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